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Uma introdução ao entendimento de Educação Ambiental face à Gestão de Sustentabilidade

Enfrenta-se, no atual período, uma crise socioambiental nunca vista na história. Todas as ações que empresas, governos e civis realizam sem planejamento, que esteja voltado ao desenvolvimento social e preservação ambiental trazem impactos em escalas e forças não calculadas.

Hoje o grande diferencial competitivo das organizações bem-sucedidas em qualquer parte do mundo são as pessoas, suas habilidades, capacidades e competências. Com essas habilidades, contribuem para o desenvolvimento organizacional, o alcance das metas, atingindo objetivos na era do conhecimento – uma das bases fundamentais do desenvolvimento e da melhoria de todos os processos empresariais – está estabelecido na qualidade e na formação do capital humano envolvido, e no amplo diálogo com os vários públicos de interesse (stakeholders) dessas organizações.

Este tema assume grande importância e merece especial atenção, uma vez que a sociedade contemporânea passa por um momento complexo, marcado por profundas transformações culturais e de aprendizagem, que paralelamente a um progresso técnico- científico sem fim, o que mais se destaca e ao mesmo tempo dele depende é a necessidade de saber conhecer. Isto tem produzido grandes contradições entre a finalidade da pesquisa científica com vistas para o desenvolvimento tecnológico, e os impactos sobre a sociedade e o meio ambiente, mensurados pelos resultados.

Influenciado pelo paradigma da modernidade, o progresso da ciência é monitorado na materialização da produtividade de objetos de consumo que a humanidade apresenta para resultados econômicos e riqueza material, mensurados em axiomáticos indicadores como o PIB ou a renda per capita.

Sociedades inteiras vivenciam rotinas exaustivas, geradoras de inúmeras situações problema como: violência, desemprego, degradação ambiental, perda de qualidade de vida – fatalidades causadas pela falta de planejamento do Estado e da evolução acelerada de um modelo social, econômico e ambientalmente predador, somado a uma sociedade carente de um formato educativo que construa um pensamento crítico suficiente para se questionar a continuidade desse processo nesse modelo.

Enquanto nos séculos passados as sociedades preocupavam-se em propor modelos – maneiras de se educar, trabalhar e até viver, com as explicações buscadas na razão, e a racionalidade era a fonte de todas as certezas, atualmente, na chamada “era pós-moderna”, há uma exigência que está se tornando tendência na sociedade (compreendidos aí os governos e as empresas): o conhecimento consciente para o exercício do fazer ou produzir. Estão sendo percebidos os inúmeros impactos socioambientais de seus modelos produtivos, que de certa forma tomam uma consciência para continuidade, e é necessário preveni-los e mitigá-los.

No período atual, muitos axiomas e verdades absolutas passaram a ser questionados, caracterizando-se, portanto, por um período de intensa transição paradigmática, que ocorre diante dos inúmeros desconfortos trazidos com a pós–modernidade, como a sensação de um desnorteio social e descontrole no funcionamento dos ciclos terrestres, a exemplo das mudanças climáticas globais e locais, da contaminação desenfreada dos recursos aquíferos e do desmatamento acelerado em todo o planeta, principalmente nas regiões tropicais.

Diante deste quadro de crise, nosso trabalho pretende abordar a necessidade de implementação da Educação Ambiental nas empresas brasileiras, como forma de colaborar com a gestão de processos produtivos e com a discussão de modelos de produção e desenvolvimento sustentável, admitindo uma cultura que favoreça o estabelecimento de uma sociedade crítica e preocupada com o ambiente e a sociedade, elementos que compõem fundamentalmente o grande ecossistema chamado Planeta Terra. Busca-se, portanto, analisar como as empresas no País estão desenvolvendo ações educativas direcionadas à implantação de uma cultura organizacional, fundamentada nas premissas do desenvolvimento sustentável, e saber qual o impacto de tais ações educativas no âmbito da sensibilização, na formação de recursos humanos voltados à gestão socioambiental, e na construção de propostas de planejamento, gestão e monitoramento de processos produtivos direcionados ao paradigma da sustentabilidade.

Os aspectos relevantes que configuram a Educação Ambiental e sua legitimidade: aspectos legais, históricos e metodológicos retratam a urgência de programar a Educação Ambiental desde a escola básica até a superior, para que a sociedade ou as comunidades adotem como parte de sua rotina o cuidado e a responsabilidade com o Meio Ambiente, e as empresas buscarão igualmente desenvolver-se com foco na responsabilidade social-empresarial.

Este estudo efetivou-se com a base teórica em autores como:

Moacir Gadotti, que no livro A Pedagogia da Terra afirma que; “o poder da tecnologia ante as descobertas da destruição do planeta, cuja principal afirmação é entender a importância da ética e o sentido da cidadania planetária, e acredita que somente pela Educação pode-se redirecionar o olhar das pessoas e incentivá-las a repensar os valores.”

Stuart Hart, cujo pensamento diferenciado como economista mostra, “para além das ideias marxistas centradas na luta de classes, que agora, sob uma nova ótica, o futuro do capitalismo, afora a exclusão dos mais pobres, depende justamente da inclusão desses menos favorecidos – é a arte de conciliar as aspirações do mercado com as aspirações das comunidades mais pobres. Ele sugere quatro fatores fundamentais de aplicabilidade e mensuração para a construção de novos valores: Custo e Redução de Custo, Inovação e Reposicionamento, Caminho de Crescimento e Trajetória, e Reputação e Legitimidade.”

José Eli da Veiga, que se preocupa em “esmiuçar o que realmente o desenvolvimento sustentável traz de novo. Ao contrário de tomá-lo como um ‘conceito’, como tem sido no senso comum, o autor considera-o um enigma que pode ser dissecado, mesmo que ainda não resolvido.” Assim, ele julga imperioso analisar os instrumentos já criados, como “os quatro quadrantes de Hart”, e também os estudos de Karl-Henrik Robert, que desenvolveu o The-Natural Step (O Passo Natural), onde adota como parte básica “a consciência do pensamento sistêmico das organizações, sugerindo que se desenvolvam os processos com conhecimento do todo, aplicando-se formas possíveis e corretas nas reformas.”

Fritjof Capra, que “desenvolve uma característica única de entendimento sobre as relações entre homem e natureza, e estabelece uma nova linguagem científica que descreve os inter-relacionamentos e as interdependências entre fenômenos psicológicos, biológicos, físicos, sociais e culturais denominada A Teia da Vida, promovendo a ideia de que o todo é o universo e o homem é apenas um fio condutor dos processos de bem-estar que nele devem interagir”.

Peter Senge, o qual identifica que “o processo de aprendizagem não é uma preocupação somente acadêmica, mas integra também as empresas mais competitivas. Ele desenvolve a teoria de que a estratégia ultrapassa o planejamento, e enumera cinco disciplinas capazes de orientar as organizações rumo ao aprendizado, dando ênfase à “quinta disciplina”, o raciocínio sistêmico, também citado e desenvolvido por Karl-Henrik Robert, com aplicabilidade do modelo de Gestão TNS.”

Busca-se ainda compreender como as empresas entendem os significados e a relevância da Educação Ambiental-Empresarial como componente específico de transformação organizacional, que agrega valor sustentável por intermédio do planejamento, da gestão ambiental e da responsabilidade social por meio do cumprimento de todas as normas (compliance), observando de que forma essas questões são interiorizadas e compreendidas pelos tomadores de decisão das empresas.

A metodologia aplicada para compreender mais sobre Educação Ambiental e Gestão para Sustentabilidade é caracterizada pela especulação de temas que tenham pouco conhecimento acumulado e sistematizado, tendo em vista que o assunto sustentabilidade empresarial é muito recente no Brasil, apesar dos debates sobre problemas socioambientais serem mais antigos, como nas décadas de 1980 e 1990 (com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro, em 1992).

Nas pesquisas foram encontrados subsídios e discussões sobre a situação atual da Educação Ambiental no Brasil, voltada para empresas, durante a participação na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras e durante o Global Fórum (fórum global sobre as indústrias, a cidade e o clima), realizado no CIETEC/FIEP (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), com a participação da Universidade da Indústria e do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas/SP, eventos nos quais reuniram-se alguns papers com foco na Educação Ambiental nas empresas.

Iniciou-se a discussão sobre como surgiu e evoluiu a Educação Ambiental desde a década de 1950, durante os primórdios do movimento ambientalista norte-americano, movimento que promoveu o debate sobre a sua legitimação no mundo e no Brasil como instrumento a ser usado na formação de um cidadão consciente. Ainda no mesmo capítulo discutiu-se de que forma a Educação Ambiental pode ser efetivada nas mudanças de hábitos não somente dos cidadãos, como das empresas, no sentido de nortear todas as ações socioprodutivas voltadas a um modelo de desenvolvimento sustentável.

Na “Ecopedagogia” evidencia-se que a prática pedagógica busca atuar de forma profunda na conscientização, de tal modo que vai além dos muros da escola. Após discorrer sobre a Educação Ambiental nos bancos escolares, o capítulo se encerra em uma discussão da efetividade dessa educação na mudança de práticas dentro das empresas, como instrumento de auxílio e apoio na construção de modelos de gestão voltados às questões socioambientais.

Também, buscou–se refletir como se deu a evolução que se chama atualmente de responsabilidade sóciocorporativa das empresas, e de que forma ao longo da história do modelo capitalista urbano-industrial as empresas, ao redor do mundo, gradativamente assumiram parte da responsabilidade dos impactos sociais e ambientais que foram causando. Tal análise tornou-se necessária para que se fizesse o resgate da evolução das preocupações das empresas com o meio ambiente e a sociedade; discutiu-se que tais preocupações se deram a partir de uma sociedade que avançou nos modelos educativos e de identificação de seus direitos, e quanto ao reconhecimento dos impactos ambientais causados pelos processos produtivo e de consumo. Isto permitiu associar a sensibilização de empresas e cidadãos através da evolução dos modelos educativos e seus impactos sobre a formação de uma cidadania ativa.

A evolução da responsabilidade socioambiental-empresarial foi analisada paralelamente ao movimento da Educação Ambiental proposta pela ONU, em suas múltiplas interações complementares aos métodos aplicados nos modelos de Gestão para Sustentabilidade. São os principais instrumentos de Planejamento e Gestão para Sustentabilidade usados no Brasil, às vezes de forma individualizada e outras vezes de forma integrada, como o BSC-Balanced Scorecard, considerado um indicador importante e ferramenta reconhecida para a Gestão Estratégica do Negócio. Ele tem a finalidade de descrever um “sistema balanceado de mensuração”, e neste trabalho se apresenta com enfoque na “perspectiva de aprendizado e crescimento”.

Para interagir com os planos estratégicos, surgem o TNS-The Natural Step (O Passo Natural), uma ideia que nasceu na Suécia em defesa da natureza, e se transformou em centro de estudos mundialmente reconhecido sobre Gestão para Sustentabilidade, e a GRI-Global Reporting Initiative, uma organização baseada em rede, pioneira de sustentabilidade mais usada no mundo em quadro de notificação. A GRI está comprometida com a melhoria contínua do quadro e de sua aplicação em todo o mundo, e seus objetivos fundamentais incluem integração ambiental, social e de governança. O relatório da GRI foi desenvolvido em uma busca de consenso, o processo multi-stakeholder. Os participantes são provenientes de negócios globais, da sociedade civil, trabalhista, acadêmica e de instituições profissionais e, por fim, o relatório será trabalhado com os quadrantes de Hart, que desenvolveu uma forma muito especial de Criação de Valor Sustentável por meio do método dos “Quatro Quadrantes”, que valoriza os pontos fundamentais de mudanças direcionadas, sendo: Inovação e Reposicionamento, Caminho de Crescimento e Trajetória, Custo e Redução de Custo e, finalmente, Reputação e Legitimidade.

Analisar como a Educação Ambiental evoluiu entre as empresas brasileiras – diante das demandas por certificações ambientais, como a série ISO 14.000 e outras séries, ora praticada como parte do cumprimento das ações necessárias ao recebimento dos certificados, ora como parte do cumprimento de acordos com o Ministério Público (TACs), ou como anexo das ações de implementação de Ecoeficiência e Produção mais Limpa nos processos produtivos. Várias outras pesquisas apontam enormes lacunas ainda na aplicação e na concepção da Educação Ambiental, como decisivo instrumento de geração de consciência e transformação da sociedade, e ainda sob o aspecto de incentivo para se buscar novos modelos de produção e consumo que causem cada vez menos impactos nos ecossistemas e nas comunidades.

Há muitas lacunas e falta de dados a respeito de como caminha a educação ambiental no âmbito das empresas no Brasil, tendo em vista a necessidade emergente que há em virtude das novas exigências da gestão focada na sustentabilidade (ISO 26.000), fazendo com que inúmeras outras ações sejam implantadas, como gestão de stakeholders, Governança Corporativa, P + L (produção mais limpa), ecoeficiência, SIGMA, planejamento sistêmico, planejamento por Balanced Scored Card (BSC). Isso torna a aplicação da Educação Ambiental uma estratégia central e complementar entre as inúmeras ações que devem ser implantadas em direção à produção sustentável. A falta de dados e as complexas interações entre a EAE e as novas ferramentas de gestão para sustentabilidade pedem um aprofundamento posterior da pesquisa, no sentido da compreensão dos novos papéis da educação ambiental diante das grandes mudanças que estão ocorrendo nos modelos de gestão.

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O Instituto de Sustentabilidade, Inovação e Ensino (isie) nasceu em 2008, questionador dos procedimentos de ensino e aprendizagem tradicionais. Localizado em São Paulo, Campinas, ministra cursos de pós-graduação e aperfeiçoamento, além de projetos de pesquisas e consultorias.
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